o pó da gaveta

naquele dia, na boca do abismo, entre um riso, um beijo, um ofego e outro, você confidenciou que tinha em si um pouco de Ismália. contou que a garganta escancarada do cânion e o leito cheio de pedras do rio que corre no final da queda compunham uma espécie de chamado hipnótico, um desafio à razão para que medisse forças contra uma vontade irracional. eu não julguei; muito pelo contrário, admirei a grandeza de tamanha confissão, feita quase de passagem, como se na boca do abismo tudo fosse pequeno e trivial, e de pronto me identifiquei: também eu me vi tomado pelo impulso de Ismália, num combate bem disfarçado, vitorioso por apenas manter os pés presos ao chão. olhei ao redor, na grandeza quase opressiva do lugar monumental em que nos encontrávamos; olhei para as dezenas de pessoas que se esgueiravam sobre os lábios do desfiladeiro, sentiam o seu hálito e ouviam seu sussurro; alguns até ousavam e se abriam, quase suspensos, quase convencidos pela ilusão do voo e da liberdade suprema e final. éramos dezenas de proto-Ismálias, cada uma à sua maneira lutando contra a vaidade e a pretensão de se acabar em poesia; uns se agarrando à literal dureza da realidade e à constatação da sua própria pequenez, outros vislumbrando a chance de ser parte de algo ainda maior do que aquele momento e lugar: a chance de ser a cada vez uma Ismália melhor, mais perfeita, de procurar o penhasco mais digno e o voo mais demorado pode nos levar por anos e quilômetros e destinos e trilhas. perseguir a ilusão de um final grandioso é, de certo modo, artifício que sempre empurrará esse final para um ponto mais distante no horizonte, e nos dará o privilégio de guardá-lo entre todas as outras surpresas que a vida nos reserva. naquele dia, na boca do abismo, Ismália nos uniu; num aparente contrassenso, nos educou pelo exemplo e instigou uma utopia compartilhada: buscaremos o sumidouro mais fundo, a encosta mais íngreme, o rochedo mais implacável. a ilusão da queda perfeita nos manterá por muito tempo encravados em terra firme, ao mesmo tempo pilares e asas um do outro.