o pó da gaveta

do som da música que nos guia, enquanto não há nada mais que nos impeça de balançar a vida ao nosso próprio ritmo, que seja frenético sem respirar sem pausa nem descanso agarrando a vida entre os dentes, ou a passo firme, forte, ponderando cada mínimo volume de ar que saia de nossas bocas, ou então aquele jorro de vida que assenta a poeira do tempo que fingimos não passar, que de fato não passou, que de fato ficou pra trás, eterno por ser efêmero, doce pelo sal dos poros. cada idéia que surge e conversamos em bocas ouvidos gestos toques lençóis, e tudo termina, aliás, não termina, pela hora do grito libertário em êxtase ou em dor, que nada mais é do que um recomeço. reconstruímos a barragem transbordada, propositadamente deixando centímetros a menos, que a matéria se esgota e já não temos mais tempo de erguer muros tão altos, e por isso nos vemos cada vez mais inteiros, não obstante mutilados nas microestruturas passíveis de renovação (pois não somos indivisíveis e nem tudo é descartável), feito aquela recomposição liquidando as macrossinfonias passíveis de decantação, feito aquela transfiguração onde um mais um é um mesmo, que é o que somos enquanto não há nada mais que nos impeça de balançar a vida ao nosso próprio ritmo, do som da música que nos guia…